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Um Conto Perdido

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Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho, conforme Lei Nº 9.610, de 19 de Fevereiro de 1998.

Era uma vez um conto lindo, cheio de palavras bonitas e escrito com letrinhas de diversas cores. Parecia uma sopa de letras! Todavia, andava muito triste, pois necessitava de um autor. Quem lhe escrevera, partiu um dia para comprar mais papel afim de terminá-lo e desapareceu nas estradas da vida. Pobre conto com a história não encerrada, cabisbaixo, saía todos os dias de cima da mesa a procura de um autor que terminasse a sua história. Andava pelas ruas de Campos do Jordão enfrentando um frio terrível.

Açoitava-lhe o vento e a chuva vinha para piorar deixando todas as páginas molhadas e enrugadas.

Certo dia, em uma dessas saidinhas para encontrar um autor, encara um sol danado e suas páginas ressecam um pouco, ficando as letrinhas esbranquiçadas, vira os olhos em direção às letras e se assusta! Desesperado para não perdê-las totalmente, corre mais do que rápido para a sombra debaixo da marquise de uma loja. Foi um Deus nos acuda! Ele viu um menino passar e chamando-o pediu-lhe:

– Ei! Ei, menino! Por favor, pode me ajudar? Minhas letrinhas estão desbotando… me ajuda!

O menino esguio e com o cabelo embaralhado, depois de jogar bola em campo próximo, surpreso com os olhos esbugalhados, corre para ajudar o conto amigo. Mais do que depressa, leva-o para casa e o coloca em cima da sua mesa de estudo, começando a desenhar novamente as letras com canetinhas de cor. Horas depois, as letrinhas estavam todas coloridas novamente.

Agradecido o conto falou com o menino:
– Obrigado amiguinho! Como se chama?
Prontamente o respondeu:

– Meu nome é Felipe! E o seu?
– Ainda não tenho nome, pois preciso que alguém me termine. — falou tristonho —

Felipe pensativo, com cara de “tive uma ideia!”, resolve ler o texto do conto e pegando um lápis dentro da gaveta da escrivaninha, passa a continuar a escrever a sua história. O conto se ria de felicidade! Os rabiscos do lápis faziam cócegas e deixavam ele cada vez mais encantado! Parecia um pote de arco iris recheado de tanta riqueza!

Não satisfeito com apenas escrever, o menino depressinha buscou uma revista cheia de figurinhas de árvores, plantas, rios e muita, muita natureza. Recortou-as uma por vez e as colou nas páginas do conto terminado. Nossa, quanta felicidade o conto tinha agora em seu coração! Estava sorriso só! Descobriu em poucos segundos que se você está feliz, pode ficar mais feliz ainda! Mas… faltava uma coisa, lembrava o menino. Felipe pega o lápis novamente e começa a desenvolver as letras com o nome do conto.

Então, o conto que se sentia esquecido e perdido na vida, agora radiante de satisfação e alegria, agradece ao menino que sorridente começa a reler a sua história.

Nota do autor:

Apesar da vida nos oferecer algumas vezes amarguras e tristezas, não se pode negar que também nos oferece alegrias. Se conseguirmos canalizar os pensamentos para o otimismo e a sensatez das nossas ações, provavelmente seremos um Felipe a ajustar a vida de alguém que sofre e necessita de solidariedade, não um conto perdido.

 

                                                                   FIM

 

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Poesia e Poema

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Poesia é uma forma de linguagem imaterial. Quando se deseja expressar os sentimentos de modo figurativo ou simbólico, utiliza-se a linguagem conotativa, que é a linguagem da poesia.

A poesia deve possuir características musicais tipo:

Melodia, onde o leitor sente-se envolvido com o enredo do tema. O mesmo é levado a lugares da consciência pela lembrança dos fatos. A memória se torna ativa. É um cantarolar suave cheio de afeto;

Harmonia, onde o leitor sente as diferenças das suas emoções, seja revolta, irritação, medo, angústia, ternura, felicidade, prazer e outras. Aflora os sentimentos mais íntimos;

Ritmo, onde o leitor se permite sentir o pulsar do coração em um compasso mais lento, brando ou agitado, sendo possível para algumas poesias tornar a sensação com várias variantes inseridas sobre o mesmo.

Os poemas são as letras engendradas de maneira a atingir um objetivo, que é sensibilizar o leitor no mais profundo do seu íntimo. É um gênero textual (narração, descrição e dissertação) e existe em forma de versos com rimadas ou não.

A poesia é tão antiga como o ser humano, pois é o resultado do processo dos sentidos, que organizados tornam-se sentimentos.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos Autorais reservados a Bessa de Carvalho

O Lado Poético da Vida

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Sentado na cadeira de balanço na varanda, submeti-me imediatamente a uma autorreflexão: quantas vivências teve ele na vida?

Tenho um cajueiro de barba branca no quintal. Coitado, deu o que tinha que dá. Os anos foram dóceis com ele, lhe permitindo muitos cajus fofos e adocicados.

Jovem, abraçava o seu tronco e de galho em galho subtraia-lhe os frutos. Sentava-me em seus braços e saboreava um caju por vez lambendo os lábios cheio de prazer. Por vezes, pensava naqueles momentos: como a vida é bela! Imagina, quantos podem viver essa aventura na mocidade? Quantos ficam a admirar as folhas e os frutos de um cajueiro e se enchem de felicidade somente porque observa a sua nobreza?

Hoje, comemorando 40 anos de vida, o velho cajueiro não dá mais os frutos como antes. Murchos e ressecados, caem como gotas de orvalho ao seu redor, todavia ainda consegue me fazer sonhar com a bella vita, quando precedendo os frutos enfraquecidos, surgem flores vivas e fulgentes anunciando que o bom velhinho ainda respira.

Tenho a satisfação pessoal de saber de onde venho, o que faço aqui e para onde vou. Porque quando vive-se uma vida focando não somente a própria felicidade, mas principalmente a do outro, sente-se a internalização do amor como unidade basilar da vida.

Lembro do meu pai quando cultivava flores neste mesmo quintal, tratava-as com um carinho todo especial. Derramava afeto em todos os seus gestos e as flores respondiam em beleza e cores. Às vezes, dizia para ele que nada sentia pela natureza e me respondia com simplicidade: “um dia filho, quando tiver a idade certa você sentirá.”

Assim, percebo também como vivem as pessoas ao meu redor. Loucas, ativas, se entregam ao vai e vem nas calçadas em busca da felicidade. Colocam como objetivo maior, uma casa, um carro, uma viagem, ou outra coisa que os façam regozijar-se ao extremo. Passam anos a fio perseguindo o próprio sorriso e sem aperceberem-se mergulham no lago dos prazeres fugidios diante dos próprios olhos, abraçando a tristeza como depressiva amiga, rude, gananciosa e sedenta de sofrimento. Choram, ao descobrirem o vaso vazio que fizeram de suas vidas. Não tem flores! Na verdade, a felicidade estava ali, no lado poético da vida, numa simples rosa no jardim e não a enxergaram.

Observo demoradamente o cajueiro e reflito nas palavras do meu pai: “[…] quando tiver a idade certa […] “.

Autor: Bessa de Carvalho

Recordações

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Ela entra em seu quarto a passos lentos e caminha até o espelho.

Rebusca no rosto por inteiro as marcas do tempo.

A idade consumiu os dias mais ricos de sua vida.

A riqueza das joias que a levavam ourada, dividiram momentos de festas nos salões provincianos.

Os vestidos longos de carmim e chá, rodeados por babados de seda branca, enfeitaram o corpo sensual e confundiram as ideias de muitos homens em sua juventude.

Sai do espelho em direção à janela e espalmando as mãos com o rosto colado no vidro da mesma, visualiza o cais por alguns instantes reflexiva.

Volta a cabeça com o olhar em direção à escrivaninha e caminha até ela.

Na mesa, repousa um diário com alguns escritos.

Folheia-o com a destra suavemente como a buscar algo, e encontra.

Ali está escrito o dia em que perdeu os filhos afogados na enseada.

Saiu de barco a remar com o casal Rodrigo e Naira, juntamente com os rebentos para um passeio e o tempo estava estranho.

Um temporal anunciou-se e foi quando no meio do lago, surpreendida por uma ventania tão forte e chuva arrasadora, viu adernar a pequena embarcação com todos a bordo.

O desespero foi grande!

Procurou o casal e os avistou afundando criticamente no lago.

Debateu-se angustiada e sem saber nadar direito tentou salvar as crianças do triste destino. Tarde demais!

Seus corpos flutuavam como troncos de carvalho.

Fecha tristemente o diário, alisa-o com carinho esperando que as memórias se distanciassem e dos olhos lágrimas escorrem percorrendo o rosto triste.

Vira-se e saindo do quarto, desce a escada suavemente deslizando a mão no corrimão até chegar ao seu primeiro degrau. Anda mais um pouco e posiciona-se lateralmente à porta do escritório do marido a observá-lo.

Geraldo com uma garrafa de rum quase seca em uma das mãos, chora segurando a fotografia da família, onde todos estão juntos e no pensamento, seus filhos brincam e sorriem com ele.

Helena “dá meia volta” ansiosa e ofegante, afastando-se rapidamente na direção da sala com intensão de ir para a varanda. Deseja fugir daquela cena e não perturbar o marido.

Angustiada aperta o passo cada vez mais e sem perceber a parede que divide os cômodos, transpassa-a chegando do outro lado com íntima facilidade. Para, e olha no horizonte o sol começando a nascer.

Então, o seu corpo esvanece lentamente de baixo para cima antes dos primeiros raios solares alcançarem o olhar triste e reflexivo.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho

Sentimento de Amor

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Os teus olhos refletem o amor

E a pureza dos teus sentimentos,

Na certeza os teus lábios no primor

Se envolvem nos carentes momentos.

É ternura, é sútil sutileza o teu carinho

A envolver-me em teus braços lentamente,

É a flor retirada os espinhos

É a rosa a amar veemente.

Não desvie o pensamento de mim

Ó amada afetiva doçura,

Se enrosque como as rosas aos jasmins

No jardim de tremenda loucura.

Me aqueça nesses versos com emoção

Me invada o corpo e retira a calma,

Me resgata de vez o coração

No agitado movimento da minh’alma.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho

LER

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Ler é caminhar nas nuvens da emoção,

É pisar as letras numa estrelinha,

É beijar de leve o coração,

É tocar as flores da amarelinha.

Ler é correr os olhos por muitos versos,

Que nos falam de amores por mil maneiras,

Sentir Deus num sutil olhar discreto

E a Sua voz no chuá das corredeiras.

Ler é tocar com os dedos os poemas,

Navegar no barco da fantasia,

Bagunçar por dentro a serenidade,

Escutar o vibrar dos fonemas,

Abraçar de vez a poesia,

Que nos fala sempre uma verdade.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho

Menino Matreiro

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Era uma vez um menino sabido que morava na área rural, num sítio com matagal, onde grilos o tempo todo conversavam com os mosquitos.

Êta menino matreiro esperto que ele só, de dia enrolava a mãe, dizendo vou estudar, mas dava na corda um nó. Corria feito maluco atrás da sombra do avião, os braços abertos em zig-zag, fingiam pegar com as mãos.

Êta menino matreiro esperto que ele só, pescava os vaga-lumes no pote de mel cipó. No rio com os amiguinhos, nadava que nem um peixe, faltava a aula do professor com seu amigo giló.

Êta menino matreiro esperto que ele só, falava para o seu pai todo mês, que na aula de matemática os números se rebelaram, ali poucos ficaram e com as letras se juntaram fugindo do português.Um dia a mãe descobriu, que aquele menino danado, agora até malcriado mentia que “dava dó”! Nossa foi um “Deus nos acuda”, a mãe que era da roça e não gostava de troça, com a vara de marmelo, tingida de verde e amarelo, cantou em dó menor.

Êta menino matreiro esperto como ele só!

Dedico este pequeno texto à minha querida mãe, que nos idos da minha infância ensinou-me, da sua maneira singela, ser um homem de bem.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho