Quando a Morte Chora


Um dia encontrei no caminho a morte,

Triste e soluçando de cabeça baixa,

Aos prantos vez por outra se achava

Uma vítima da própria sorte.

Cara horrenda, olhos esbugalhados ela me ria,

Meio nervosa, sincera e trevosa,

Falava trêmula e escandalosa,

Do engano que cometia.

Perguntei-lhe: como poderia se enganar?

Se a vida daqueles que por um motivo ou outro

Como um apenado que se encerra no calabouço,

Um dia ela irá libertar.

Em lágrimas, respondeu-me: ora meu amigo,

Quantas crianças tenho levado no meu colo,

Vítimas essas que tanto consolo,

Quando as levo junto comigo.

Estas cujas traquinagens deveriam desfrutar,

De roda, bola, bonecas e encontros com jogos de chá,

Sorrindo das brincadeiras dentro do lar,

Hoje tem as dores como castigo.

Não era para levar as criancinhas da Síria,

Há algum engano dentro deste coração meu,

Tenho implorado todos os dias perdão a Deus

Por ser tão pequenina e ainda mesquinha.

Consternado com a fala da pobre morte,

Lhe afago os cabelos todos brancos,

Com um lenço enxugo-lhe os prantos

E tento lhe orientar, dar-lhe um norte.

Ouça-me amiga de coração,

Não é você que ceifa a vida alheia,

Ao contrário, vem como amiga e companheira,

Resgatá-las de vil situação.

Quantas lhe esperam ansiosas,

Cientes de que o Divino Senhor,

Tem na bondade, na justiça e no amor,

Tu como um jardim e elas como rosas.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho

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