Áurea de 1888


Nas memórias vivas que guardo em assombro,

em manhã de céu azul e sol escaldante,

cheguei indigno e humilhante

pisando nas pedras no Cais do Valongo.

Arrancado da África mãe e levado em solidão,

esta, subjugando-me com ausência do amor,

sendo negro, no chicote e na dor,

escravizaram-me com outros irmãos.

Colocaram-me em navio a viajar

e nos negreiros naveguei com os ratos,

sofri com a fome e a cumbuca era um prato,

Nu, na carne crua, respirei humilhação.

Eu sou negro e nas algemas da escravidão,

trabalhei nos campos de milho e café,

nas noites da senzala consolava-me na fé,

nos ensinos da minha religião.

Quando a Lei Áurea foi assinada

a alegria no sorriso estampou,

libertei-me dos temores do horror

e no meu peito a liberdade gritava.

Eu sou negro e sinto o valor da minha origem,

sou de alma nobre e sincera

na soltura o que apenas se espera,

é o respeito a condição de cidadão.

Sou um ser igual que pensa, ama e sente,

tenho orgulho da minha cor

e os sentimentos que do outro espero,

são dignidade, igualdade e amor.

Dia 13 de Maio, comemoram-se a promulgação da Lei Áurea.

“(…) O Cais do Valongo é um antigo cais localizado na zona portuária do Rio de Janeiro, entre as atuais ruas Coelho e Castro e Sacadura Cabral. Recebeu o título de Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO em 9 de julho de 2017, por ser o único vestígio material da chegada dos africanos escravizados nas Américas.

Construído em 1811, foi local de desembarque e comércio de escravos africanos até 1831, com a proibição do tráfico transatlântico de escravos. Durante os vinte anos de sua operação, entre 500 mil e um milhão de escravos desembarcaram no cais do Valongo. (…)”

O processo de abolição da escravatura no Brasil foi gradual e começou com a Lei Eusébio de Queirós de 1850, seguida pela Lei do Ventre Livre de 1871, a Lei dos Sexagenários de 1885 e finalizada pela Lei Imperial n.º 3.353, conhecida como Lei Áurea.

A escravidão é um ato que mata a esperança, os sonhos e depois a própria vida do ser escravo. Promove o holocausto, desrespeita os valores humanos e causa a falência moral da humanidade.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho

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