O Lado Poético da Vida


Sentado na cadeira de balanço na varanda, submeti-me imediatamente a uma autorreflexão: quantas vivências teve ele na vida?

Tenho um cajueiro de barba branca no quintal. Coitado, deu o que tinha que dá. Os anos foram dóceis com ele, lhe permitindo muitos cajus fofos e adocicados.

Jovem, abraçava o seu tronco e de galho em galho subtraia-lhe os frutos. Sentava-me em seus braços e saboreava um caju por vez lambendo os lábios cheio de prazer. Por vezes, pensava naqueles momentos: como a vida é bela! Imagina, quantos podem viver essa aventura na mocidade? Quantos ficam a admirar as folhas e os frutos de um cajueiro e se enchem de felicidade somente porque observa a sua nobreza?

Hoje, comemorando 40 anos de vida, o velho cajueiro não dá mais os frutos como antes. Murchos e ressecados, caem como gotas de orvalho ao seu redor, todavia ainda consegue me fazer sonhar com a bella vita, quando precedendo os frutos enfraquecidos, surgem flores vivas e fulgentes anunciando que o bom velhinho ainda respira.

Tenho a satisfação pessoal de saber de onde venho, o que faço aqui e para onde vou. Porque quando vive-se uma vida focando não somente a própria felicidade, mas principalmente a do outro, sente-se a internalização do amor como unidade basilar da vida.

Lembro do meu pai quando cultivava flores neste mesmo quintal, tratava-as com um carinho todo especial. Derramava afeto em todos os seus gestos e as flores respondiam em beleza e cores. Às vezes, dizia para ele que nada sentia pela natureza e me respondia com simplicidade: “um dia filho, quando tiver a idade certa você sentirá.”

Assim, percebo também como vivem as pessoas ao meu redor. Loucas, ativas, se entregam ao vai e vem nas calçadas em busca da felicidade. Colocam como objetivo maior, uma casa, um carro, uma viagem, ou outra coisa que os façam regozijar-se ao extremo. Passam anos a fio perseguindo o próprio sorriso e sem aperceberem-se mergulham no lago dos prazeres fugidios diante dos próprios olhos, abraçando a tristeza como depressiva amiga, rude, gananciosa e sedenta de sofrimento. Choram, ao descobrirem o vaso vazio que fizeram de suas vidas. Não tem flores! Na verdade, a felicidade estava ali, no lado poético da vida, numa simples rosa no jardim e não a enxergaram.

Observo demoradamente o cajueiro e reflito nas palavras do meu pai: “[…] quando tiver a idade certa […] “.

Autor: Bessa de Carvalho

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