Recordações


Ela entra em seu quarto a passos lentos e caminha até o espelho.

Rebusca no rosto por inteiro as marcas do tempo.

A idade consumiu os dias mais ricos de sua vida.

A riqueza das joias que a levavam ourada, dividiram momentos de festas nos salões provincianos.

Os vestidos longos de carmim e chá, rodeados por babados de seda branca, enfeitaram o corpo sensual e confundiram as ideias de muitos homens em sua juventude.

Sai do espelho em direção à janela e espalmando as mãos com o rosto colado no vidro da mesma, visualiza o cais por alguns instantes reflexiva.

Volta a cabeça com o olhar em direção à escrivaninha e caminha até ela.

Na mesa, repousa um diário com alguns escritos.

Folheia-o com a destra suavemente como a buscar algo, e encontra.

Ali está escrito o dia em que perdeu os filhos afogados na enseada.

Saiu de barco a remar com o casal Rodrigo e Naira, juntamente com os rebentos para um passeio e o tempo estava estranho.

Um temporal anunciou-se e foi quando no meio do lago, surpreendida por uma ventania tão forte e chuva arrasadora, viu adernar a pequena embarcação com todos a bordo.

O desespero foi grande!

Procurou o casal e os avistou afundando criticamente no lago.

Debateu-se angustiada e sem saber nadar direito tentou salvar as crianças do triste destino. Tarde demais!

Seus corpos flutuavam como troncos de carvalho.

Fecha tristemente o diário, alisa-o com carinho esperando que as memórias se distanciassem e dos olhos lágrimas escorrem percorrendo o rosto triste.

Vira-se e saindo do quarto, desce a escada suavemente deslizando a mão no corrimão até chegar ao seu primeiro degrau. Anda mais um pouco e posiciona-se lateralmente à porta do escritório do marido a observá-lo.

Geraldo com uma garrafa de rum quase seca em uma das mãos, chora segurando a fotografia da família, onde todos estão juntos e no pensamento, seus filhos brincam e sorriem com ele.

Helena “dá meia volta” ansiosa e ofegante, afastando-se rapidamente na direção da sala com intensão de ir para a varanda. Deseja fugir daquela cena e não perturbar o marido.

Angustiada aperta o passo cada vez mais e sem perceber a parede que divide os cômodos, transpassa-a chegando do outro lado com íntima facilidade. Para, e olha no horizonte o sol começando a nascer.

Então, o seu corpo esvanece lentamente de baixo para cima antes dos primeiros raios solares alcançarem o olhar triste e reflexivo.

Autor Bessa de Carvalho

Direitos autorais reservados a Bessa de Carvalho

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